III Domingo de Páscoa

Maestà (particolare) - Siena
DUCCIO DI BONINSEGNA, Aparição aos apóstolos
22 Abril 2012
Reflexões sobre as leituras 
de
LUCIANO MANICARDI
O paradoxo do Deus crucificado transforma-se no paradoxo do crucifixo em Deus, do ressuscitado que tem um corpo ferido e marcado pelo mal que sofreu

domingo 22 Abril 2012 
Ano B
Act 3,13-15.17-19; Sal 4; 1Jo 2,1-5a; Lc 24,35-48

A aparição do ressuscitado aos seus discípulos (Evangelho) é o acontecimento central que caracteriza o terceiro Domingo da Páscoa, Domingo em que o anúncio Pascal ressoa ainda nas palavras de Pedro nos Actos (1ª leitura). A segunda leitura prossegue a lectio descontínua da Primeira Carta de João que caracteriza o Domingo de Páscoa no Ano B e que apresenta o Ressuscitado como Aquele que obtém a remissão dos pecados para o mundo inteiro.

O Evangelho mostra o Ressuscitado "no meio" dos seus e a fazer reinar a paz entre eles (Lc 24,36). Cristo está no meio dos seus "como Aquele que serve" (Lc 22,27) e o serviço que o Ressuscitado presta à sua comunidade é a paz. A experiência da presença do Ressuscitado na comunidade é de paz e de comunhão, realidades que, no espaço cristão, não são psíquicas, afectivas ou fruto de compromissos, mas teologais, ligadas à fé.

O grupo dos onze e dos outros que estavam com eles (cf. Lc 24,33), como acontece em cada comunidade cristã, congrega confissões de fé (v. 34) e de dúvida (v. 38), alegria e incredulidade (v. 41). Não basta que Jesus seja visto, escutado, tocado e que coma diante deles para que os discípulos tenham fé. É necessária ainda a abertura da sua mente à inteligência das Escrituras. Sem as Escrituras, não acontece a fé Pascal. Não é suficiente tocar no corpo do Ressuscitado: Cristo deve ser encontrado no corpo das Escrituras para que nasça a fé Pascal que o denuncia como Aquele que realiza o desenho de salvação do Pai. Escreve Ugo di San Vittore: “A Palavra de Deus revestida de carne humana apareceu uma só vez de forma visível e agora, esta mesma Palavra, vem até nós escondida nas páginas das Escrituras e na voz humana que a proclama”.


 

Se as Escrituras se resumem ao mistério Pascal e se tal mistério é o cumprimento das Escrituras, então, na verdade, também a missão e a pregação da Igreja radicam no testemunho das Escrituras, no Novo Testamento: “Assim está escrito que o Messias havia de sofrer e ressuscitar de entre os mortos, ao terceiro dia; que havia de ser anunciada, em seu nome, a conversão para o perdão dos pecados a todos os povos, começando por Jerusalém." (Lc 24,46-47). Fundada sobre o acontecimento Pascal, a Igreja encontra nas Escrituras, no Antigo Testamento, o testemunho e a profecia daquele acontecimento e também da sua essência. “Disto vós sois testemunhas”: disto e não de qualquer outra coisa, poderíamos acrescentar. Mas ser testemunha do Ressuscitado significa também ser testemunha das Escrituras. A palavra mártys (testemunha) tem como raíz uma palavra que significa “pensar”, “recordar-se”, “estar preocupado”. A testemunha é, antes de mais, aquele que medita e recorda as Escrituras que falam de Cristo (“as coisas escritas sobre mim na lei…”). É daí que nasce a missão, conotada com o pedido de conversão, com o anúncio da misericórdia de Deus e da remissão dos pecados (cf. Lc 24,47).

O Ressuscitado mostra aos seus discípulos as mãos e os pés, os membros perfurados, a carne humana ferida. A encarnação proporcionou a Deus a experiência do sofrimento, do padecer e morrer. E agora o Ressuscitado é encontrado na carne dos que sofrem, tocado nos corpos das vítimas do mal. Cristo não é um espírito ou um fantasma (v. 37) e o cristianismo não é uma alienação ou um espiritualismo quando leva a sério a dor do mundo, quando confessa o Ressuscitado enquanto cura o necessitado, quando discerne o Ressuscitado enquanto toca a carne ferida do homem. “Tocai-me”, disse Jesus, e este tocar a carne humana ferida para confessar o Ressuscitado, este encontro do mistério do Ressuscitado com o enigma do mal, torna a fé uma procura humilde, às apalpadelas, exactamente como a procura dos pagãos, dos não crentes que procuram Deus “mesmo tacteando” (Act 17,27). O paradoxo do Deus crucificado transforma-se no paradoxo do crucifixo em Deus, do ressuscitado que tem um corpo ferido e marcado pelo mal que sofreu. Corpo que pode ser encontrado nos corpos de quem sofre no meio de nós. É o são materialismo cristão.

LUCIANO MANICARDI

Comunidade de Bose
Eucaristia e Parola
Textos para as Celebrações Eucarísticas - Ano B
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