Ir a Caná

Paolo Veronese, Nozze di Cana, 1563. Una descrizione dell'opera si trova al termine della meditazione sul Vangelo.
Paolo Veronese, Nozze di Cana, 1563. Una descrizione dell'opera si trova al termine della meditazione sul Vangelo.
17 janeiro 2016
II domingo do Tempo Comum - ano C
Jo.  2,1-11
Reflexão sobre o Evangelho
por ENZO BIANCHI


Naquele tempo, realizou-se um casamento em Caná da Galileia
e estava lá a Mãe de Jesus. Jesus e os seus discípulos
foram também convidados para o casamento.
A certa altura faltou o vinho.
Então a Mãe de Jesus disse-Lhe: «Não têm vinho».
Jesus respondeu-Lhe: «Mulher, que temos nós com isso?
Ainda não chegou a minha hora».


Sua Mãe disse aos serventes: «Fazei tudo o que Ele vos disser».
Havia ali seis talhas de pedra, destinadas à purificação dos judeus, levando cada uma de duas a três medidas.
Disse-lhes Jesus: «Enchei essas talhas de água». Eles encheram-nas até acima.
Depois disse-lhes: «Tirai agora e levai ao chefe de mesa». E eles levaram. Quando o chefe de mesa provou a água transformada em vinho, – ele não sabia de onde viera, pois só os serventes, que tinham tirado a água, sabiam – chamou o noivo e disse-lhe:
«Toda a gente serve primeiro o vinho bom e, depois de os convidados terem bebido bem, serve o inferior. Mas tu guardaste o vinho bom até agora».
Foi assim que, em Caná da Galileia, Jesus deu início aos seus milagres.
Manifestou a sua glória e os discípulos acreditaram n’Ele.

Para quem compreende a intenção mais profunda do trecho evangélico das bodas de Caná, é sempre um pouco embaraçante ouvi-lo ser proclamado nas celebrações de matrimónio. Porquê? Porque se o lermos atentamente damos conta de que nunca aparecem os esposos que selam o seu matrimónio com a aliança. A esposa não chega sequer a ser nomeada enquanto ao esposo é dirigida uma palavra, apenas uma vez, por parte do chefe de mesa, sem que se ouça uma resposta: é um personagem sem voz, sem carne, sem corpo, como se tivesse sido subtraído à cena deixando espaço a um outro esposo… O protagonista deste trecho é, com efeito, Jesus, enquanto os outros personagens são apresentados, sempre, em relação a Ele: “a mãe de Jesus”, “sua mãe” (sem que se diga o nome Maria) e “os seus discípulos”, testemunhas silenciosas mas que no fim aparecerão como a comunidade, a esposa daquela aliança com o esposo Jesus, selada no vinho novo do Reino.

Procuremos pois compreender esta “epifania”, esta manifestação que na festa da Epifania era cantada em conjunto com outras duas, de acordo com a antífona Tribus miraculis: o reconhecimento dos Magos (manifestação aos gentios), o batismo (manifestação a Israel) e, justamente, as bodas de Caná (manifestação à Igreja). Celebra-se, portanto, um casamento em que está presente a mãe de Jesus, o próprio Jesus e os seus discípulos. Estamos no "terceiro dia", expressão temporal que evoca o dia da glória de Jesus, o dia em que se mostrou como Kýrios (cf. Mc 8,31 e par.; At 10,40, ecc.). A mãe de Jesus está presente, está aqui no "início dos sinais", tal como estará presente no fim dos sinais, junto da cruz (cf. Jo 19,25). Enquanto mãe de Jesus, presente naquela hora, vendo que faltava o vinho, dirige-se a Ele com audácia e diz-Lhe: "Não têm vinho" e, se não têm vinho como se poderá celebrar, com a alegria necessária, a festa? Penso muitas vezes que se a Igreja no meio da humanidade realizasse este papel de alerta ao Senhor de que "não têm vinho", de que não há alegria, isto seria já o cumprimento de um ministério essencial…

Nas Escrituras o vinho é, antes de tudo, promessa do próprio Deus, dom das bem-aventuranças e da alegria, feita ao seu povo. É o vinho que alegra o coração humano (cf. Sal 104,15), mas também o coração de Deus (cf. Juízes 9,13 : ’Elohim), e é o vinho que selará o banquete escatológico prometido, através do Profeta, a todos os povos da terra, aquele banquete em que se celebrará a libertação definitiva da morte (cf. Is 25,8): “No monte Sião, o Senhor do Universo prepara para todos os povos um banquete de carnes gordas, acompanhadas de vinhos velhos, carnes gordas e saborosas, vinhos velhos e bem tratados. Neste monte, Ele arrancará o véu de luto que cobre todos os povos,...” (Is  25,6). É o vinho que cria o clima de amor entre o esposo e a esposa na “sala do banquete” (Ct 2,4) do Cântico dos Cânticos, vinho que descerá em abundância das colinas da Terra Santa (cf. Gl 4,18). É o vinho da gratuidade que atravessa a vida sob a senha da necessidade do pão, num excesso que faz extravasar o homem e a mulher para fora de si. Por isso na refeição que o Senhor nos deixou como seu memorial está o pão necessário e o vinho gratuito (cf. Mc 14,22-24 e par.; 1Cor 11,23-25), porque o humano deve sempre afirmar um e outro, sentir-se criatura necessitada mas também capaz de criação, de beleza, de canto e de dança.

Não existe, portanto, uma celebração de bodas sem vinho e, por isso, a mãe de Jesus decide intervir. Mas a resposta de Jesus surge com palavras distanciadoras, que lhe pedem que fique no seu lugar porque, enquanto mãe biológica, não pode pretender nada: “Mulher, que temos nós com isso?”. Noutros termos, Jesus está-lhe a dizer que se existe qualquer coisa de seu, não é o ser sua mãe mas outra coisa. E eis que Maria de mãe se faz discípula que escuta, que obedece ao Filho e que pede aos outros que façam o mesmo: "Fazei tudo o que Ele vos disser". A mãe, feita discípula, pede que concedam a Jesus a escuta e a obediência, nada mais. Não pode dizer outras palavras porque é uma mulher crente, capaz de escutar, obediente ao Senhor. É a primeira discípula de Jesus.  

A este ponto Jesus dá um sinal antecipador da sua hora que ainda não chegou e que acontecerá apenas na cruz onde se celebrarão as bodas de sangue. Os serventes obedecem-lhe de imediato: apresentam seis talhas de pedra cheias de água que servia para a purificação e que já não é necessária, porque é a presença do Esposo que purifica todos os convidados. E é então que a água abundante, mais de seiscentos litros, se torna vinho para a boda! Quantidade e qualidade excecionais dizem que aquele vinho é mais do que um simples vinho é o vinho do amor dado por Jesus aos seus, é o amor que não pode nunca faltar. Ainda hoje continuamos a beber aquele vinho de Caná dado por Jesus e, à sua mesa, quando celebramos o encontro com Ele, a adesão a Ele, a fé n'Ele, celebramos as bodas entre Ele e a comunidade cristã, seu corpo. Como nas bodas de Caná os dois tornam-se "uma só carne" (Gen 2,24; Mc 10,7.8; Mt 19,5.6; Ef 5,31), assim na Eucaristia os crentes tornam-se carne de Cristo, Senhor e Esposo, Esposo que se dá totalmente à sua comunidade. "Isto – conclui o Evangelista – foi o início, o primeiro dos sinais da manifestação da Glória de Jesus, quando os seus discípulos acreditaram n'Ele" e se tornaram a sua comunidade, a sua Esposa.

Porque é poderosa e intrigante a metáfora das Bodas? Porque mais do que outras exprime a verdade da Encarnação: corpos que se transformam num só corpo, comunhão e comunicação no canto do amor, na sóbria embriaguez do vinho. A nossa linguagem humana é limitada, sobretudo quando quer aludir a realidades invisíveis e então recorre às realidades mais humanas: comer, beber vinho, o encontro dos corpos na celebração do amor recíproco e da recíproca pertença. Estamos sempre convidados para o banquete de Caná, não para procurar um esposo ou uma esposa que, na verdade, não estão lá, mas para tomarmos parte deste encontro entre Cristo, Senhor e Esposo, e a sua Comunidade. Trata-se de ir a Caná, de procurar ver com olhos de fé, de escutar as Palavras da Fé, de seguir as Palavras ditas por Jesus,
de provar o vinho do Reino e de tocar, sim, de tocar o corpo de Jesus.

Então sentiremos que Ele nos espera para beber connosco o vinho novo do Reino (cf. Mc 14,25 e par.): bebeu-o na terra, deixou-no-lo como dom eucarístico, mas bebê-lo-á connosco de novo na Nova Terra, no Novo Céu. (cf. Is 65,17; 66,22; 2P 3,13; Ap 21,1).


Paolo Veronese nozze di cana, schema compositivo e narrativo.
Paolo Veronese nozze di cana, schema compositivo e narrativo.

Paolo Veronese, Nozze di Cana, 1563, olio su tela, 6,7 x 9,9 metri, Museo del Louvre, Parigi.

L'opera di Veronese fu realizzata su commissione per decorare la parete di fondo del refettorio del Monastero benedettino di San Giorgio Maggiore a Venezia progettato dall'architetto Palladio. Le misure dell'opera sono monumentali da dare l'impressione che il refettorio avesse una parete aperta sullo spazio dove avveniva la scena biblica. La grandezza del dipinto non ha fermato la passione di Napoleone che lo fece togliere dal telaio e lo trasportò in Francia dove tutt'ora si trova.

Veronese immagina la scena ambientata durante un lussuoso matrimonio a lui contemporaneo immerso nelle architetture classiche. Si mescola il sacro della rappresentazione a elementi lussuosi e ludici dell'epoca. Spuntano infatti saltimbanchi, nani, vesti sontuose e tanti animali (evidenziati nell'immagine della composizione con il colore verde). 

L'opera si impone non solo per la sua dimensione, ma anche per la scelta dei colori riportati alla luce da un restauro che è durato dal 1989 al 1992.

Questo quadro ci chiede però non solo di "guardarlo" soffermandoci sulle vesti e sui dettagli fittissimi, ma di "leggerlo" cogliendone il significato. Molto spesso ci fermiamo al lato estetico di una opera, per cui ci basta averne colto il soggetto per decretare finito il nostro rapporto con essa (che cosa rappresenta?) perdendone il valore profondo di pensiero personale che può innescare in noi (che cosa dice a me?).

Bene, allora proviamo a leggere questo quadro come se fosse un libro occidentale (quindi da destra a sinistra). Ci aiuterà l'immagine della composizione qui a fianco seguendo i cerchi e le frecce rosse indicate. A destra troviamo un servitore che porge del vino a un ospite (1), subito al di sotto un altro servitore capovolge la giara che risulta vuota: è "Venuto a mancare il vino".

Veronese fa seguire la narrazione verso sinistra utilizzando le linee ottiche dei bracci della tavola e ci fa arrivare con l'occhio ai due protagonisti "c'era la madre di Gesù. Fu invitato alle nozze anche Gesù con i suoi discepoli" (2). Attorno a Gesù c'è concitazione, ma lui sembra calmo "Non è ancora giunta la mia ora", ed è anche uno dei pochi personaggi nel quadro che guarda l'osservatore, lo interroga in un certo senso, lo invita a sedersi e a mangiare, non ci dimentichiamo che l'opera era pensata per un refettorio. Noi come rispondiamo a quello sguardo?

Un servitore parla con Maria e non direttamente con Gesù, perché sarà la madre a chiedere il segno. 

Il miracolo si compie (3). Un uomo riccamente vestito, forse il coppiere, tiene in mano il nuovo vino e subito al di sotto come nella scena 1 un servitore capovolge la giara che stavolta risulta piena. Un perfetto parallelismo narrativo e visivo.

Ma come interpretare visivamente un versetto come: «Che ho da fare con te, o donna? Non è ancora giunta la mia ora» ? Veronese inserisce nella composizione una scena peculiare (la possiamo osservare evidenziata nella composizione con due cerchi azzurri). Perfettamente in asse con Gesù sopra la balaustra due servi stanno macellando della carne per il banchetto, un chiaro richiamo alla passione, che diventa così chiave di lettura del miracolo.

Concediamo più tempo all'arte, non diamo un' occhiata frettolosa che risponda solo al bello o al brutto, proprio dove pensiamo di aver colto il significato, uno sguardo più attento ci dirà che stavamo perdendo l'essenziale.